A cidadania brasileira atravessa um momento de transformação sem precedentes. O que antes era consolidado em pilares de papel, cartórios e filas físicas, hoje migra, de forma acelerada, para a tela de dispositivos e terminais automáticos. Se, para as novas gerações, a digitalização é um caminho natural, para uma parcela significativa da população, essa transição impõe barreiras que vão além da tecnologia: trata-se de um debate sobre a exclusão social e a preservação da dignidade humana.
Confesso que, como observador atento e cidadão, sinto na pele essa frustração diária. Eu detesto a imposição do atendimento via totem. Seja na escolha de um lanche em uma rede de fast-food ou na simples necessidade de comprar um bilhete de transporte, somos frequentemente forçados a interagir com máquinas insensíveis que não raro falham, confundem ou simplesmente excluem quem não domina aquela interface específica. Quando essa lógica de "autoatendimento" sai do lazer e entra no serviço público, o problema ganha contornos dramáticos.
Historicamente, o acesso ao serviço público foi o principal garantidor da cidadania. Contudo, ao digitalizarmos integralmente o acesso a direitos básicos — da previdência à saúde — sem um plano robusto de alfabetização digital, corremos o risco de criar um novo tipo de "analfabetismo cívico". A tecnologia deve ser uma ferramenta de eficiência, não um muro que separa o cidadão do seu direito. Quando uma máquina substitui o humano, a empatia desaparece, e o cidadão sênior, muitas vezes, sente-se um intruso no seu próprio país.
Para que a transformação digital seja, de fato, um avanço, precisamos de três pilares:
Simplicidade e Acessibilidade: O design de serviços públicos deve ser inclusivo por padrão. Isso significa interfaces que respeitem as limitações sensoriais e cognitivas, tornando a navegação intuitiva, e sempre oferecendo a alternativa do atendimento humano.
O Papel do "Ponteiro": O serviço público precisa de mediadores humanos treinados para atuar como pontes. A tecnologia não deve substituir o atendimento, mas otimizá-lo, liberando o servidor para focar naqueles que mais precisam de suporte.
Educação para a Autonomia: Cidadania plena na era digital significa empoderamento. Projetos de educação voltados ao público sênior — que vão desde o manuseio seguro de dispositivos até a compreensão dos seus direitos no ambiente virtual — são hoje o maior investimento social possível.
O envelhecimento populacional é uma realidade incontestável. Como sociedade, precisamos assegurar que a "era digital" seja um espaço de ampliação de direitos, não de silenciamento. Afinal, uma nação que se moderniza, mas deixa para trás aqueles que construíram a sua base, sacrifica a sua própria memória.
A verdadeira transformação do serviço público não será medida pela rapidez dos totens ou pelo número de cliques, mas pela capacidade que teremos de garantir que, independentemente da idade ou da facilidade com a tecnologia, todo cidadão continue sendo visto, ouvido e respeitado. O progresso só é real quando é humano.
Marcio Ap. Pereira 12/06/2026
Em tempos de intensa polarização e reações inflamadas, as esferas de poder enfrentam um inimigo silencioso que nasce de onde menos se espera: o apoio incondicional de correligionários e bases aliadas. A substituição do conselho crítico pela adoração cega tem se revelado uma das maiores armadilhas para a longevidade de quem ocupa posições de comando, transformando o que deveria ser um trunfo político em um passaporte para o isolamento.
O primeiro grande sintoma desse processo é a perda do radar estratégico. Quando o círculo íntimo de uma liderança abdica do papel de questionar e passa apenas a chancelar decisões, o líder perde a capacidade de identificar riscos iminentes. O ego, inflado por elogios constantes, passa a funcionar como um filtro seletivo, criando uma barreira que impede o líder de enxergar qualquer realidade que contradiga suas próprias crenças. Sem o contraponto necessário, o processo de tomada de decisão deixa de ser técnico ou baseado na realidade prática e passa a servir puramente à manutenção de uma imagem de infalibilidade.
Esse isolamento cognitivo gera uma forma severa de cegueira. Cercado por um entorno que interpreta qualquer sinal de alerta ou discordância como uma ofensa pessoal ou ameaça à coesão do grupo, o líder descola-se do mundo real. Como consequência direta, as falhas administrativas e políticas deixam de ser corrigidas a tempo, sendo empurradas para debaixo do tapete até que estourem em crises irreversíveis.
Os reflexos dessa blindagem artificial tornam-se nítidos no debate público. Habituado a discursar apenas para plateias cativas que aplaudem qualquer retórica, o líder perde a capacidade de argumentar de forma sólida. O debate, que por natureza exige o confronto saudável de ideias, atrofia e transforma-se em um monólogo puramente reafirmador. Diante de questionamentos complexos ou de uma oposição bem preparada, a fragilidade intelectual vem à tona: sem o repertório gerado pela convivência com o contraditório, o líder frequentemente recorre a falácias, ataques pessoais ou desvios de foco. Para analistas e observadores externos, a postura agressiva expõe o medo de que a narrativa de perfeição desabe sob o mínimo escrutínio.
O fenômeno se sustenta por uma simbiose perigosa entre a liderança e sua base. Ao elevar o líder a um patamar sagrado, o apoiador transfere para ele a defesa de suas próprias crenças pessoais; criticar o comandante, portanto, passa a ser visto pelo seguidor como uma autocrítica intolerável. Esse pacto de silêncio mútuo perpetua o erro. No entanto, o julgamento histórico costuma ser implacável com gestões construídas sobre ecos. A ausência de vozes corajosas, capazes de apontar os equívocos antes do desastre, pavimenta o declínio. A verdadeira eficiência de um líder não se mede pela capacidade de mobilizar multidões sob o manto da devoção, mas pela sobriedade de ouvir o que é desconfortável, reconhecer as próprias falhas e corrigir a rota enquanto ainda há tempo.
Marcio Ap. Pereira - Advogado, Jornalista e Historiador.
Manifesto por um governo de conciliação e união nacional
*Aldo Rebelo
O Brasil não é um país pobre. O Brasil é um país rico e interditado. Interditado institucionalmente, e o que interdita o Brasil não é a falta de capital ou tecnologia, o Brasil é interditado por suas próprias instituições. A interdição é institucional. O STF, o Ministério Público, o Ibama e a Funai podem bloquear, e bloqueiam, qualquer investimento público ou privado. Ferrovias, rodovias, hidrovias, portos, aeroportos, atividades de mineração em terra e no mar, plantas industriais, nada escapa à ideologia de negação do desenvolvimento das corporações do Estado e de suas aliadas, as Organizações Não Governamentais financiadas do exterior. E no século das terras raras, o país detentor da mais promissora fronteira mineral do mundo permanece imobilizado nas suas potencialidades.
A outra interdição é política, e tem seu epicentro na divisão artificial do país em esquemas ideológicos rígidos (esquerda x direita) ou biológicos (raça x raça e gênero x gênero). A questão é que é possível ganhar eleições em um país dividido, mas é impossível governá-lo.
O Brasil vive um estado de guerra civil virtual nas redes sociais, com a distribuição equânime de ódio, ressentimento e mágoa entre os adeptos das facções ideológicas e políticas em disputa. A resultante é a ausência de qualquer mediação que contemple a agenda nacional e o interesse comum. A situação exige a ousadia dos justos como contraponto à pusilanimidade que afeta o organismo nacional. O Brasil anseia que as ambições mesquinhas sejam confrontadas pela audácia dos estadistas nos momentos sublimes da vida dos povos.
A encruzilhada histórica do Brasil clama por um governo de conciliação e união nacional, constituído com a finalidade de submeter os conflitos naturais em uma sociedade democrática ao denominador comum das aspirações permanentes da Nação. A ideia parece uma abstração romântica, mas já foi adotada no Brasil em condições cercadas de maiores adversidades no passado.
Ao abdicar do trono, em meio à crise que o levou de volta à Europa, D. Pedro I deixou um herdeiro de cinco anos de idade, seu filho Pedro II, e uma anomalia institucional e política: um império sem imperador e uma monarquia sem monarca. O Brasil mergulhou em um estado de anarquia e desordem, conheceu quatro guerras civis simultâneas no período da Regência: a Farroupilha, no Sul, que proclamou uma República e nomeou um caudilho presidente – Bento Gonçalves - ; na Bahia, o médico e jornalista republicano Francisco Sabino, aliado de Bento Gonçalves, promoveu sua própria rebelião; no Maranhão, fazendeiros e sertanejos liderados por Francisco dos Anjos Ferreira, o Balaio, organizaram o levante a muito custo pacificado pelo Barão e futuro Duque de Caxias; e no Pará, a mais violenta das insurreições da Regência, a Cabanagem, de fazendeiros, caboclos, tapuios e ribeirinhos desprezados pelo Império. A última dessas revoltas, geralmente estimuladas por liberais republicanos e caudilhos românticos ou interesseiros, ocorreu em Pernambuco, a Praieira, em 1848.
Em 1853 D. Pedro II amadurecera, já não era imperador quase adolescente e convocou os serviços de um dos estadistas do Império, o Marquês do Paraná, a quem incumbiu a missão de organizar o gabinete da conciliação, reunindo conservadores e liberais moderados com o objetivo de sepultar o espírito das guerras civis e descortinar um horizonte de pacificação e progresso para o País.
Paraná reunia autoridade e experiência para a tarefa. O gabinete da conciliação foi constituído e o Brasil conheceu o período de paz e desenvolvimento. O mercado interno foi unificado, os investimentos em infraestrutura, principalmente ferrovias, foram ampliados, a segurança jurídica e a estabilidade política e institucional atraíram capitais para os negócios e o Império conheceu o seu melhor momento.
O governo de conciliação e união nacional nas condições atuais não se destina a sufocar diferenças nem a impor soluções unilaterais ao destino do País. Ele terá como projeto construir uma agenda comum, que contenha aquilo que no passado se traduzia pela expressão “objetivos nacionais permanentes”, que se elevam acima das ambições ideológicas, políticas, partidárias ou de grupos.
A agenda deve reunir três grandes eixos capazes de contemplar o mundo do trabalho, o mundo da produção e as camadas médias da sociedade: a retomada do desenvolvimento com a desinterdição do País; a redução das desigualdades com a valorização da educação pública e a reconstrução da vida democrática baseada no diálogo entre os que se propõem a assumir responsabilidades pelos destinos da pátria no Executivo, no Legislativo e no Judiciário.
O destino deu ao Brasil os recursos necessários para uma vida digna e de esperança, principalmente para a juventude. Mas o destino deve receber o impulso das escolhas para que possa se converter em desenvolvimento e elevação do padrão de vida material e espiritual dos brasileiros.
*Aldo Rebelo foi presidente da Câmara dos Deputados e ministro de Estado.
Por que devemos desmitificar a classe política e defender o funcionalismo estável para evitarmos o colapso institucional do país.
No cenário político brasileiro, consolidou-se uma cultura distorcida que eleva parlamentares e chefes de Executivo ao status de divindades, salvadores da pátria ou "faraós" intocáveis. Movidos por egos inflados e uma arrogância crônica, muitos agentes públicos parecem esquecer sua real condição ao cruzarem as portas dos palácios governamentais. É urgente que desçam do palco. Políticos não são entidades a serem adoradas; são cidadãos comuns, humanos e limitados. O voto não é uma outorga de nobreza, mas sim a assinatura de um contrato de prestação de serviços. O político é, na mais pura essência do termo, um empregado do povo, a quem deve satisfação, transparência e respeito.
Se dependêssemos exclusivamente da atual classe política para gerir o dia a dia do Estado, o Brasil quebraria da noite para o dia. Independentemente de coloração partidária, a polarização entre direita e esquerda no parlamento tornou-se, em grande medida, mera retórica eleitoreira — uma cortina de fumaça para engajar militâncias nas redes sociais. Nos bastidores do poder, a diferença real frequentemente se resume a uma questão geográfica do próprio bolso: se o dinheiro público vai para o lado direito ou esquerdo. O pragmatismo fisiológico visa o usufruto das benesses estatais, operando um loteamento de cargos e emendas sem qualquer pudor ideológico.
Quem realmente impede o colapso da máquina pública e garante o funcionamento dos serviços essenciais é a estrutura técnica e permanente do funcionalismo público. São os professores, médicos, enfermeiros, policiais e técnicos que carregam o país nas costas enquanto os governos passam a cada quatro anos.
A importância vital desse corpo técnico se sobressai nos momentos mais dramáticos da história recente. Em 2018, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro sofreu o atentado à faca, o atendimento de primeiros socorros que salvou sua vida foi realizado na Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora — pelas mãos de profissionais de um hospital que atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS) um sistema público. Da mesma forma, o combate à corrupção não nasce de iniciativas parlamentares, mas sim do trabalho de policiais, promotores de justiça, auditores e juízes — servidores concursados que dependem da estabilidade funcional para investigar e punir os desvios dos poderosos sem o temor de demissões sumárias. Sem o funcionalismo o Estado colapsaria. Pois a organização do próprio Estado é o funcionalismo.
Sob a falsa premissa de "economia e eficiência" que discursos pseudo-liberais tentam promover o desmonte do funcionalismo através da terceirização desenfreada de atividades fim do Estado. Na ponta do lápis, a matemática se mostra perversa: um trabalhador terceirizado chega a custar para o Estado mais do que o dobro de um servidor concursado, devido às margens de lucro de empresas intermediárias. Na outra extremidade, esse mesmo trabalhador recebe salários menores e enfrenta a precarização de direitos, gerando alta rotatividade e queda na qualidade dos serviços.
Mais do que um prejuízo financeiro, a terceirização de funções essenciais do poder público destrói o princípio constitucional da impessoalidade e abre brechas perigosas para o tráfego de influência. Sem a proteção do concurso público, o gestor político do momento ganha um poder concentrado imenso. Transforma-se o Estado em um balcão de negócios, onde o governante "bate à porta" da empresa parceira para exigir favores ou indicações políticas. Temendo a perda de contratos milionários, as empresas cedem, alimentando uma engrenagem de corrupção sistêmica.
A estabilidade do servidor público não é um privilégio corporativo, mas sim uma salvaguarda da própria sociedade contra os mandos e desmandos de governos passageiros. Se o cidadão comum não despertar para uma consciência crítica profunda, cobrando seus representantes e fiscalizando suas ações, a democracia brasileira se tornará cada vez mais frágil e refém de oligarquias. O Brasil necessita urgentemente de menos idolatria a salvadores da pátria, menos brigas teatrais de plenário e muito mais respeito à estrutura técnica que realmente faz o país funcionar.
O autor é Advogado, jornalista e historiador